22.5.15

CHEF RØ NA GRALHEIRA

DIÁRIO #1
18 de Setembro de 2011
Porto/Viseu/S. Pedro do Sul/Nodar






Notas avulso:


  • Às vezes, é mesmo bom voltar do macro para o micro. No ano em que decido abandonar Lisboa, o primeiro projecto que faço é sobre vacas.
  • Processo criativo: esperar para ver.
  • O exótico é justamente o que está tão perto, mas tão perto de nós, que nem vemos. Miopia selectiva.
  • Ainda nem saí do autocarro e já vi uma placa a anunciar uma aldeia chamada PARAÍSO. Sem querer ser spoiler, posso já adiantar que no final da temporada, e durante uma outra viagem errante pelo complexo montanhoso mais aridamente belo de Portugal, vou avistar uma placa a anunciar uma aldeia chamada ALDEIA.
  • Gostava muito que este blog fosse manuscrito. Fazia todo o sentido, mais ético que estético.
  • Felizmente, a tradição é o que era. Abandonei Lisboa este ano e com ela as "produções fictícias".
  • Aterro em Candal e a primeira coisa que faço é ir à missa. Parece-me lógico. Na igreja, o padre diz que uma videira que não é sulfatada, não dá fruto.
  • Ainda não comecei a cozinhar (ou a ver cozinhar; são sinónimos), e no entanto já tenho uma receita escrita nas alíneas anteriores.

video







10.4.15

À LA CARTE

MUSSELINE DE MANDIOCA
C/ PICADINHO DE BIFE DA VAZIA

por Chef Strapazzolli





Um oceano e mais de 8 mil quilômetros me separam do meu país, e uma das coisas que mais sinto falta é a comida. O Brasil tem uma riqueza e variedade imensa de alimentos e um dos meus favoritos é a mandioca, também conhecida por aipim, macaxeira e outros nomes de origem indígena. Gosto de dizer que mandioca (assim como açaí, tapioca, etc.) é comida de índio. É uma raiz, fonte de dois carboidratos diferentes, e não contém glúten. Uma maravilha culinária. Pode-se fazer chips de mandioca, fritar ou simplesmente cozer. Encontrei no Continente e resolvi preparar em forma de musseline, uma espécie de puré. Cozi a mandioca em água e sal. Quando um pouco da água evaporou (logo após a primeira fervura), ‘dei um susto’ na mandioca. Dar um susto consiste em acrescentar um copo de água fria — é o susto que a água fria dá na mandioca quente! Isso provavelmente é coisa que gente velha acredita: deixa a mandioca mais, digamos, macia. Isso aprendi com a minha mãe, que nem é tão velha assim. Melhor prevenir do que remediar. Deixei ferver novamente e já estava no ponto. O correto seria processar, mas na falta de um processador, bati a mandioca com creme de leite e uma colher de manteiga derretida no liquidificador até ficar com a textura de um purê cremoso. Adicionei um pouco de sal e a musseline estava pronta. Há quem opte por bater o creme de leite em chantilly, mas acho demasiado trabalhoso e no fim o resultado é quase o mesmo (com chantilly a musseline torna-se mais aerada). Eu servi com picadinho de bife da vazia, que é super tenro e saboroso. Picadinho todo mundo sabe fazer, não é? Alho, cebola, tomate, azeite, sal, pimenta, cheiro verde. Esqueci de dizer que a mandioca, além de ser deliciosa, também é de fácil digestão e fornece muita energia.

©Célio Strapazzolli
viva-radio.com/strapazzolli

5.4.15

CHEF RØ DE VOLTA AO MINHO















Em jeito de conclusão à série da intervenções/aparições artístico-culinárias que "interromperam" por 4 vezes a temporada "Chef Rø goes Alentejo", o Ministro da Comida [aka Nuno Miguel] escreve um último testamento para acompanhar a segunda temporada "Chef Rø de volta ao Minho" e inaugurar a terceira e última temporada "Chef Rø na Gralheira". Os 4 nostradâmicos anúncios podem ser revistos nos seguintes links:


Quase 4 anos depois, o quinto e último imperial testamento não esgota as possibilidades de inflexão pós-dramatúrgica do que é ou pode ser o Sensual Absoluto™, mas lança a derradeira pista para a erradicação final e total da Espécie. Pela primeira vez disponibilizado neste blog, o Aviso Final.

Photo ©Dorijan Kolundžija


É CANIBAL, NINGUÉM LEVA A MAL
Discurso do Ministro da Comida – in Quartel General da Idolátrica, Outubro de 2011


O canibalismo edifica as sociedades, e configura o fundamento filosófico e económico de todas as grandes uniões federais, arcana ordem do mundo, secreta conspiração apocalíptica, fisionomia mascarada do individualismo, do colectivismo, e de outras eucaristias dominicais e acordos de reconciliação.

No canibal contemplamos o grande festival da cultura nas garras da profusão de recursos, em autofagia para seu próprio sustento, como consumismo em massa e venda de todos os bens possíveis fornecidos pela forma actual dos mercados auto-devoradores. Este espectáculo de canibalismo acrescenta a dimensão referida por Walter Benjamin, através da qual a humanidade de hoje consegue transformar a sua pior alienação em deleite estético e espectacular. O devir canibal da nossa cultura tem ainda razão mais prosaica, ligada a contingências meramente materiais e demográficas: num mundo em que o crescimento da espécie humana é constante, esta acabará inevitavelmente por se ter a si própria como único alimento.

Os Católicos (futuristas e apocalípticos como sempre) consomem desde sempre dois tabus: não só comem o homem em Cristo, e por ele a humanidade inteira, como também conhecem as delícias niilistas da teofagia, no banquete eucarístico da matança e consumo da carne de Deus, já para não falar dos grandes churrascos da Inquisição. Há muito que entendem todos os mistérios antiquíssimos da transgressão do ser, a morte divina que nos ensina as alegrias do fim do humanismo, porque, se Deus morreu, então o Homem pouco mais é que alimento.

A carne e o espírito de Deus, assim como as barrigas de freira e os papos de anjo, fazem parte da gastronomia tradicional. O espírito, como todos sabemos, é inefável, não tem sabor, surge como silêncio na partitura, e, à semelhança do wasabi nos pratos de sushi, serve para que consigamos distinguir os sabores. Quanto à carne humana, não tem muito que aprender, basta que esta substitua a carne de porco nos pratos mais populares, porque o sabor é exactamente o mesmo. Febras e entremeadas, mãozinhas guisadas, rojões e sarrabulho, sandes de coirato, chouriços, secretos na brasa, banha, e tudo aquilo que nos aprouver fazer com porco, resulta lindamente com carne humana. Podemos encontrar esta relação entre o humano e o porco nas expressões literárias mais antigas, como é o caso da Odisseia, na descrição dos banquetes de Circe, em que os pobres marinheiros davam à costa e eram embriagados com estranhos filtros mágicos de artemísia, coisa que os induzia a ter comportamentos porcinos, para melhor serem conduzidos pelos matadouros da indústria suinícola local.

O inconsciente colectivo também incluiu a antropofagia nas lendas da doçaria. Não era em vão que a casinha de chocolate albergava uma velha confeiteira antropófaga com predilecção por crianças — é que, como todos sabem, as carnes infantis são sempre mais delicadas e propícias à execução do medieval “manjar branco”, pudins e gelatinas, extraídos após longas horas de fervura em lume brando. Sabemos também que os Astecas, para além de venderem carne humana nos mercados — fresca, em salmoura e fumada — possuíam, na sua gastronomia, uns biscoitos secos muito populares, confeccionados com mel e corações humanos desfiados, que consumiam nas festas solsticiais.

Nos nossos tempos, a morte do humano não deixa de ser celebrada com requintes de androfagia. Rick Gibson entendeu que comer carne humana consubstancia o rito de passagem em que o indivíduo penetra na esfera transpessoal. Podemos datar nos anos oitenta, através das suas performances, a origem das primeiras receitas de gastronomia pós-humana. Estas consistiam em pequenos hors d’oeuvre de pâté de amígdalas de criança, cobertos por finas fatias de testículos frescos de adulto, e deglutidas perante uma plateia atónita e incrédula. Como sobremesa para tal petisco surge hoje, como ‘retorno do recalcado’ em versão light, o mais recente gelado de leite materno, outra controversa receita a denunciar, claramente, que estas delícias se tornarão, em breve, próprias para o consumo do Zeitgeist.

Perante os cenários negros que se aproximam e que, de certa forma, confirmam temas niilistas antigos, o indivíduo só pode encontrar apoio e raiz na sua natureza mais profunda, no "ser", na identidade primordial e imutável. A afirmação de fidelidade a este ser é o que dá conteúdo à moral niilista, é como que a sua orientação geral por assim dizer. Na realidade ôntica avistamos a primeira terra seca em que o verdadeiro canibal não se pode deter, uma vez que a mesma indeterminação que encontramos em relação à crença na 'Vida' aparece novamente com o problema ontológico. Sob o signo do puro "ser", devemos querer assumir e afirmar absolutamente que somos, mesmo quando, na nossa natureza, não há nada que corresponda ao ideal positivo do super-homem anunciado pelos filósofos, quando a própria vida e a sua corrupção mostram como destino a perversidade, o declínio e a ignomínia. É por isso que, se alguém adere ao referido princípio do ser, o único valor ético real seria o da "autenticidade"; em última análise, aquele que, sendo decadente por natureza, consegue ser autenticamente ele mesmo, e tem a coragem de existir absolutamente em si mesmo, será maior do que aquele que gosta de desenvolver uma "superioridade" evolutiva, que não se fundamenta em autênticas formas de estar, e que se tenta agarrar à postura hirta da cultura programada e esterilmente iluminista.

Vejamos, como exemplo disto, a antítese ética do canibal: o “Vegetariano”. No vegetariano nada há de autêntico, tudo é parecer em vez de ser, exumação do espírito bragantino serôdio, com as suas as ordenações e chulé rançoso de Maria da Fonte — tudo nele é proselitismo, fome de carne transformada em histeria militante. E, no entanto, o vegetariano encarna os mais finos ideais do super-homem iluminado, búdico, a tresandar a ideias cegas de tanto Aufklärung, e por isso não consegue enxergar que um mundo constituído apenas de animais herbívoros provocaria a extinção das plantas, e em poucas semanas colapsaria em termos ecológicos. A estes opõe-se a lógica sapientíssima da antropofagia, porque não há melhor forma de apagar a pegada ecológica da humanidade do que comer, de coentrada, os pezinhos que as marcam no ecossistema. Porém, não há seita ecológica New Age que não professe, de forma agressiva, o dogma da alimentação exclusivamente vegetal. E esta é uma mania que tenta ressurgir no Ocidente desde os clérigos pitagóricos, como sinal de boas maneiras próprio das almas espiritualmente mais evoluídas em conflito com as criaturas perdidas que consomem carne, sem sequer pensar no consumo de carne humana, actividade própria de seres demoníacos. Nada poderia estar mais longe da verdade! Sabemos bem que, desde os tempos védicos, a antropofagia está ligada às mais altas divindades como Saturno, Durga, Dionísio e Osíris, e é apanágio das confrarias esotéricas mais insignes, como é o caso dos tântricos Kapalica na Índia, passando pelos santos antinomistas das grandes tradições religiosas, os xamanes do Árctico, as Bacantes, ou os Sufis Malamathia. Não será pela sua retórica indigente, parca de argumentos, que os vegetarianos nos vão convencer a enveredar por esse vício ascético-Übermensch tão apropriado a bestas herbívoras como Hitler. Só as genuínas elites alcançaram cumprir a antropofagia sensual, que traz em si o mais alto desígnio da vida e impede todos os males reconhecidos pela psicanálise — os males catequéticos.

O canibal enforma igualmente uma qualidade contrária a essa ideia de que qualquer um pode ser o que quiser, desde que se aplique, se eduque e treine nesse sentido, e manifesta-se plenamente incompatível com o self-made man da cultura do materialismo dialéctico tardio. O Canibal SABE bem que a "abertura de espírito" da sociedade mercantil, tantas vezes apregoada, é apenas a máscara da sua falta de forma interior — essa omeleta de mioleira cozinhada em microondas de aparelhos televisivos. O mesmo vale para o seu "individualismo". O individualismo e a personalidade não são a mesma coisa: o indivíduo pertence ao mundo informe da quantidade, a personalidade ao mundo superior das qualidades. O canibalismo assume-se como resposta a toda a cultura que é a refutação viva do axioma cartesiano "penso, logo existo": porque hoje só florescem indivíduos que não pensam, mas existem. O consumista, “psique” pueril e primitiva, no seu egoísmo imbecil de máquina desejante, não tem forma característica, está assim sujeito a todo o tipo de padronização programada. Porém, o antropófago SABE que a estrutura da história não é evolutiva, mas sim cíclica. Na realidade, nunca saímos das cavernas do Paleolítico. Ele está ciente de que as civilizações mais recentes não são necessariamente “superiores” àquelas ditas “primitivas” porque se estruturam em torno do ideal canibal — pelo contrário, estas mais recentes podem ser, de facto, senis e podres. Por outro lado, há sempre uma correspondência necessária entre os estágios mais avançados de um ciclo histórico e os mais primitivos. Quando os filósofos idealistas nos falam do Fim da História, não entendem que estão a viver a fase final da Europa moderna, a Europa do “faroeste”, no sentido de reductio ad absurdum dos aspectos mais negativos e caducos da civilização ocidental. O que antes existia de forma diluída, é ampliado e concentrado, manifesto na atrofia mental da incompreensão para com todos os interesses superiores, nos horizontes limitados, circunscritos a tudo o que é imediato e simplista, com a consequência inevitável de que tudo seja banalizado, básico e nivelado para baixo, até que esteja privado de toda a vida intelectual.

Por tudo isso, e remando contra o realismo social, vestido e opressor, cadastrado por Foucault, preferimos a realidade sem complexos, sem insânia, sem profanações e sem presídios do canibal. Refutamos assim a vida que decai no mero mecanicismo, previsível, endividada até ao tutano no Entrudo entediante dos mercados, em que o sentido do “eu” pertence inteiramente ao nível físico da existência. Só assim o Europeu típico do Fim da História deixou de ter dilemas espirituais, ou complicações: é um conformista idiota. Esta mentalidade patética só pode ser comparada a algo jovem e novo por equívoco. Como se atreve pois esse ignorante a condenar os ditos primitivos Canibais? Esses que, efectivamente joviais, reclamam para si a transgressão das transgressões?

Uma estatística médica recente, feita na União Europeia, demonstrou que 85% dos jovens são desprovidos de desejos sexuais fortes; em vez de satisfazerem a sua libido, procuram prazer narcisicamente no exibicionismo, na vaidade e no culto estéril do fitness e dos Health Clubs. Por causa da sua condição financeira de pura penúria, o “jovem”, menor de 45 anos, é sentenciado a um certo método de sobrevivência nada apetecível. Mas, perpetuamente contentinho por ser aquilo que é, ergue a sua pelintrice vulgar à categoria de "estilo" de vida cool: a boémia. Mas a "boémia", aquém de ser solução original, nunca é realmente sentida a não ser na continuação da ruptura irreversível com o meio cultural. Os adeptos da boémia cingem-se, pois, a consumir a tradução fast-food do que não passa, na melhor das hipóteses, de medíocre remédio. Até o escárnio das velhinhas saloias, por isso, eles merecem. Mais valia que se dedicassem a comer-se uns aos outros, porque, no fundo, tudo o que fazem se reduz à transacção canibal dos valores simbólicos, mas pervertida, mascarada. Deste modo, no século XXI, o amor foi-se transformando paulatinamente na caricatura do canibalismo.

O mesmo se passa na política.

Basta removermos a máscara da "democracia" para se tornar claro em que medida esta é apenas o instrumento de uma oligarquia que prossegue o velho método de “acção indirecta”, assegurando a possibilidade de vampirização e fraude em grande escala dos muitos que aceitam um sistema hierárquico, porque o confundem com justiça e mérito. No entanto, o canibal é o contrário de todas estas catequeses. Estamos fatigados de todos os cônjuges católicos, desconfiados e dramáticos, porque Lacan acabou com o enigma do desejo e com outros temores da psicologia Pop. Afinal, o que nos derrubava a verdade era a fatiota, a gabardina entre o mundo interior e o mundo exterior. Todavia, o canibal pode bem progredir, em reacção contra o homem engravatado, neste país de filhos do sol, amado com toda a impostura da saudade, pelos imigrantes, pelos traficantes e pelos turistas, na egrégia nação da fava rica. Nele habitará feliz, porque nunca tivemos realmente gramáticas, nem ortografia, nem bibliotecas notáveis, nem academias. E nunca soubemos o que era educado, suburbano, limítrofe ou metropolitano. Calaceiros no mapa-múndi e à beira mar cultivados, a nossa sinceridade já é intrinsecamente participante na rítmica religiosa do canibal.

O juízo recusa-se a assumir a consciência sem o corpo, e o antropomorfismo exige a vacina canibalesca. Para nossa estabilidade, contra as religiões meridionais, as inquisições visíveis do império europeu, só devemos observar o mundo oracular. Basta exagerar o nosso típico atavismo ligado às coisas salazarengas e ir mais longe, recuar em frente para a origem perdida, a Idade do Ouro, o tempo em que possuíamos a justiça pela codificação da desforra, as ciências como Magia codificada, e metamorfose contínua do tabu em totem, e pensar que nunca fomos catequizados, gostamos é de procissões e romarias. Às matronas minhotas de bigode não falta nada, basta que voltem ao estado canibal, porque de resto já têm tudo: a linguagem surrealista; saber transpor o enigma e a morte com o amparo de algumas estruturas gramaticais simples, mesinhas e adivinhação; as migrações como fuga aos estados tediosos, às escleroses urbanas, às conservatórias do registo predial; mais a ignorância verídica das coisas e o espírito de autoritarismo ante as crias. Muito antes dos Fenícios, dos Romanos ou dos Egípcios descobrirem o império, no território lusitano já se tinha descoberto a felicidade — e é isso que temos de reencontrar, porque matar a fome é a prova dos nove.











10.2.15

RESTAURANT DAY



Ou o carnaval dos food lovers

Eu já andava a namorar o Restaurant Day desde o ano da sua fundação (Helsínquia, 2011), quando ainda se chamava Ravintolapäivää (no original Finlandês) e estava prestes a tornar-se no evento internacional que é hoje. Dois anos depois, numa das minhas viagens espirituais à Maamme Suomi, em Agosto de 2013, decidi participar: juntei-me a um outro ex-Masterchef (Klaus Ittonen) e juntos abrimos o nosso pop-up restaurant de comida luso-finna na Galleria Nunes, no número 17 da Pohjoinen Rautatiekatu de Helsínquia. Na edição seguinte (Novembro), repetimos a experiência, mas "ao contrário": veio o Klaus a Portugal e juntos servimos um menu de degustação de pratos finlandeses com um toque "minhoto" na Miss'Opo (Porto). No início do ano corrente, dei o passo óbvio: tornei-me embaixador do evento em Portugal. Quem me conhece, sabe que eu tenho uma afinidade meio doentia com a Finlândia e outra não menos fetichista com a comida, por isso não é de estranhar que me tenha apaixonado por um projecto que junta estas duas coisas através de um filtro que explica quase tudo aquilo que faço/digo: por um lado, a total (e radical) democratização da prática gastronómica; por outro, a "hipsterização" dessa prática (vivam as redes sociais!) colocada no único espaço onde ela é suportável — a relação que se estabelece entre as pessoas, com as pessoas e para as pessoas, através de um elemento-pretexto que é a comida. Tudo o resto é, como aliás o subtítulo do projecto em Inglês sugere, "carnaval": dos temas que se escolhem ao tipo de comida que se serve, do espaço que se ocupa ao tipo de clientes que se atrai, das estratégias de "marketing" caseiro que se inventam aos dispositivos documentais que se montam para capturar momentos especiais às garras do efémero. Tudo isto me excita por razões diversas, sendo a primeira (e mais importante) essa dimensão meramente enunciativa da "marca" Restaurant Day, que torna os participantes/aderentes (e respectivos "clientes") os verdadeiros protagonistas do evento. Como se de um simples hashtag se tratasse, Restaurant Day funciona como uma espécie de carimbo, ou seja, uma marca de identificação, um símbolo universal que comunica uma ideia de pertença, assinando uma identidade global quando activado pelos participantes. Trata-se de um projecto sustentado por uma qualquer ideologia comunitária, sim, sem no entanto cair nos lirismos utópicos ou ceder às perversões sócio-políticas habituais nesse tipo de empreendimentos... É que os protagonistas do evento são MESMO os participantes, não são os gurus finlandeses da ideia, não são os promotores/embaixadores regionais, não são os administradores das dezenas de websites (páginas Facebook, food Tumblr's, Flickr's e Pinterest's alusivos ao tema/evento), não são os food bloggers que se aproveitam do hype inegável do acontecimento, e também não são os inúmeros prémios (turísticos, gastronómicos e outros) que a organização já arrecadou na Finlândia durante os últimos 3 anos.

Contrariamente a outros eventos de formalização similar (e existem às centenas...), o Restaurant Day aposta numa total "desresponsabilização" autoral dos impulsionadores iniciais (a quem cabe, apenas, a gestão do website, a definição das 4 datas anuais e a manutenção dos dispositivos documentais e de arquivo). Ou seja, não há, tradicionalmente falando, directores, CEOs, gestores de marca, ou RPs. Também não há sponsors, nem patrocinadores oficiais. O Restaurant Day é, na sua essência, um ORGANISMO, mais do que uma organização. E ninguém ganha dinheiro com isso, a não ser, lá está, os participantes — amadores ou não, experimentam o seu "negócio" culinário durante 24 horas, 4 vezes por ano, vendendo os seus signature dishes onde querem (em casa, na rua, numa galeria, num centro comercial, num parque de estacionamento...), quando querem (ao pequeno-almoço, ao brunch, ao almoço, ao jantar, à ceia, ao after hours...), a quem querem (amigos, desconhecidos, colegas de trabalho...), e como querem (de bicicleta, à janela, em modo supper club, ou dinner party, ou vernissage, numa roulotte, numa barraca de feira, na mala do carro, no vão de uma escada, em modo pregão...). Devem, contudo, praticar preços acessíveis — mais do que competir directamente com os restaurantes convencionais (que podem, aliás, participar, desde que realizem um menu especial a um preço especial para esse dia), pretende-se criar alternativas ao que já existe no roteiro gastronómico das cidades. A questão do preço não é, de todo, um dado banal; trata-se de um pressuposto ético em cima do qual se ergue toda a filosofia Restaurant Day: um organismo feito por todos, para todos, e com todos, sem os elitismos totós que assistem à grande maioria dos eventos gastronómicos de grande envergadura.

Restaurant Day é assim sobre o prazer de estar próximo, é sobre a partilha, é sobre a felicidade, é sobre a oportunidade de construirmos um Mundo melhor, é sobre o espírito de equipa, é sobre a solidariedade, é sobre o sentido próprio da humanidade, é sobre a vizinhança, em suma, é sobre todas as coisas que fazem parte do campo semântico do "piroso". Sem cedências! Restaurant Day abraça isso tudo com convicção, e faz disso bandeira e imagem de marca. Porque Restaurant Day acredita mesmo que é possível mudarmos o Mundo se nos juntarmos à volta de uma mesa a comer; na sua missão subsiste essa maravilhosa utopia de dar aos 4 dias anuais (um por cada estação do ano) a mesma dimensão que têm outros feriados ou celebrações internacionais (como o Natal, por exemplo), quando toda a gente, esteja onde estiver, sabe o que tem a fazer, e celebra sem ter que dar justificações a ninguém. E o Restaurant Day é isso, só que sem credos, sem política, sem geografia e, acima de tudo, sem Kapital. Mais imagem que coisa, Restaurant Day é uma ideia geral/global que se particulariza por milhares de ideias possíveis, no Mundo inteiro. É suficientemente flexível, portátil e partilhável para dela se fazerem todo o tipo de interpretações/recriações, e é, acima de tudo, de acesso livre e descomprometido. Uma materialização quase perfeita do meu universo sensível (artístico e não só!), que me predispus a ajudar a disseminar em território português. Convido assim todos os food lovers de Portugal a juntarem-se ao resto do Mundo e a inundarem as ruas de comida já no próximo dia 15 de Fevereiro de 2015! 








COMO FUNCIONA?
Qualquer pessoa, seja qual for o seu background profissional, pode abrir o seu pop-up restaurant durante um dia. A ligação ao evento geral consubstancia-se numa simples inscrição online, à qual poderão posteriormente aceder, através do website ou da aplicação para smartphones, os possíveis clientes, estejam onde estiverem. Nos seguintes links pode ser encontrada toda a informação necessária:

WEBSITE [inscrições, normas, informação geral]
FB INTERNACIONAL
FB PORTUGAL

Para esclarecimento de dúvidas, podem pedir ajuda aos embaixadores:

Rogério Nuno Costa [Porto/Norte]: rogerio.nuno.costa@gmail.com
Filipa Valente [Lisboa/Sul]: filipa.valente@tasteoflisboa.com



Todas as fotos contidas neste post têm direitos reservados a © Restaurant Day

29.1.15

RECEITAS DE FAMÍLIA, #2

À lavrador
Ou o prato do filho quando volta



Perguntam-me muitas vezes pelo meu prato favorito. Nunca sei responder. Ou então nunca me lembro de dar a resposta certa. Odeio perguntas jornalísticas de resposta rápida. Devolvo logo a pergunta com uma reformulação irónica, ou acabo por escudar-me atrás dos lugares-comuns que melhor preenchem o cinismo que sustenta a minha persona gastronómica. Assim: "Ah, eu gosto de tudo, como bom chef que sou...", ou "Só não gosto de comida mal feita!", ou "Não faço listas de favoritos, não gosto de listas, não gosto de favoritismos...", ou então o clássico "O melhor não é necessariamente bom.", ou ainda um inflamado "Gosto de comer, apenas; o acto/sujeito/desejo sobrepõe-se em importância ao objecto...", and so on, and so on, and so on. Hoje apeteceu-me rosnar para mim próprio um imenso e barulhento "BULLSHIT, Rogério Nuno Costa! O teu prato favorito é a massa à lavrador!" Ou seja, hoje apeteceu-me fazer justiça à promessa (nunca cumprida...) do Chef Rø jamais fazer coincidir a comida que gosta de preparar com a arte que o Rogério Nuno Costa gosta de humilhar. Deviam ser antípodas. Deviam dar-se mal até... Abraçando o paradoxo, afirmo então alto e bom som: "O meu prato favorito é a massa à lavrador!". Não uma massa à lavrador qualquer, claro, mas a massa à lavrador da minha mãe. Já que é para derrubar o bloco de gelo conceptual do Rogério Nuno Costa, que seja com todo o drama hiper-emocional, (auto)biográfico e relacional-sótão-d'avó a que o Chef Rø, por oposição, tem direito! E depois a massa à lavrador é aquele prato que tem tudo o que um prato de comfort food à grande e à Portuguesa (e "à mãe") deve ter, embora seja o acto de a comer que verdadeiramente interessa (bardajão alert!). Aliás, as duas coisas, ideia e acção, são inextrincáveis; só assim faz sentido falar em comida, em arte, em moda, em espiritismo, em jornalismo, em decoração de interiores, ou noutra coisa qualquer. Não vou fazer análises gastronómico-estruturalistas a este prato, portanto, e não vou dizer como se faz (ou se calhar vou, mas de uma maneira diferente da habitual), e nem sequer vou preocupar-me muito em defender a particularidade que subjaz a esta "escolha" (que não é uma "escolha", I was born this fucking way, não é?), nem tão pouco insuflar o ego da minha mãe dizendo que esta é "a melhor" massa à lavrador de todas as massas à lavrador. Este prato é importante porque é a minha mãe que o faz, sim, mas porque o faz sempre numa ocasião especial: quando eu estou imenso tempo sem vir a casa, a dona Custódia enche-me um pratalhão pornográfico de massa à lavrador em jeito de boas-vindas, como que a dizer "toma lá, e lembra-te que é nesta casa que comes coisas destas, que em mais lado nenhum te vão tratar assim, e que precisas de engordar que pareces um pau-de-virar-tripas; enquanto eu viver debaixo deste tecto hei-de sempre dizer que pareces um pau-de-virar-tripas, e que precisas de comer massa com carne, couves e feijões a ver se ganhas cor nessa cara". Eu aquiesço, logo, consinto. No Minho, comer bem ascende à categoria de Religião: comer e calar. Por isso mesmo, a maioria das coisas que aqui podia elencar para explicar o porquê deste prato ser o mais magnificente dos home cooking dishes (do chouriço de sangue caseiro que é vendido clandestinamente num talho que não posso dizer o nome à cremosidade da calda que une todos os ingredientes e que tem a ver com a qualidade geográfica do feijão) terão mesmo que ficar retidas no limbo do inaudito, do intangível e do misterioso. Posso, contudo, dar-vos a lista dos ingredientes, esperando que as imagens abaixo ajudem a cozinhá-los da melhor forma. Só nunca se esqueçam: uma dose cavalar de hidratos de carbono com pelo menos 3 tipos de proteínas por cima é a solução para todos os problemas da vida. Boa sorte!


Cebola, Alho, Louro, Água
Polpa de Tomate, Sal, Pimenta
Massa (macarrão/macarronete ou cotovelo)
Cenoura, Feijão-Manteiga
Chouriço de Sangue, Couve-Penca
Carne de vaca (da melhor qualidade possível)






RECEITA DE FAMÍLIA #1

1.11.14

GROSS'RY STORE



"O Chef Rø, esse, é a primeira e única personagem que criei seguindo meticulosamente o método de Stanislawski, completamente inútil para os palcos, absolutamente necessário para a “vida real”: eu acredito mesmo que sou o Chef Rø quando estou a fazer de Chef Rø! E o Chef Rø é especializado em JUNK FOOD™, em parte por rebeldia meio reaccionária contra o sistema gourmet proliferado mass-mediaticamente nos últimos anos, em parte porque é no lixo que encontramos a chave para a descodificação do Mundo™ em que vivemos. Um palhaço McRønald, ao vosso dispor!"

É o parágrafo do meio do primeiro texto que escrevi para o melhor depósito de trash culture de todo o ever, o grandioso TRASHÉDIA da grandiosa Joana Barrios. Honrado e babado de fazer parte de um dos poucos empreendimentos bloguísticos que sigo desde sempre, com afinco e paixão. Prometo uma periodicidade digna de um colunista profissional; os conteúdos, esses... bom, já sabem o que a "casa" gasta: ou é LIDL, ou é delicatessen do El Corte Inglès. Não há cá in-betweens! ;)

20.10.14

La Mia Casa È La Tua Casa | Especial




Um livro de receitas em forma de fanzine,
E um programa de culinária. Em directo e em diferido. Ao mesmo tempo!


La Mia Casa È La Tua Casa foi um projecto de formação culinária produzido pela Velha-a-Branca, no qual alguém emprestava a cozinha, ficando a cargo da Velha providenciar os ingredientes, os formandos e o chef! Todos participavam, portanto, na confecção e posterior degustação dos pratos. Participaram os chefs Paolo Valperga (1.ª e 2.ª edições) e Chef Rø (3.ª edição): aulas de cozinha, degustação, música, história e cultura dos povos do Mediterrâneo, no primeiro caso; aulas de cozinha, degustação, performance art, cultura pop, cinema de autor, música ambiente & outras perguntas retóricas, no segundo. Os dois chefs juntam-se agora num formato inovador: um show cooking interactivo, semi-real/semi-ficcionado, com transmissão em directo e com muitos píxeis a partir de Itália, e demonstração em diferido e com muitas cores em Portugal. No final, todos poderão provar o resultado, e até comprar um livro de receitas mediterrânicas muito especial!

Comemoração do 10.º aniversário do Estaleiro Cultural Velha-a-Branca
21 de Outubro, 20:30, Braga

19.9.14

THUG UNICORN B-DAY FEAST



POP RØ goes Thug Unicorn. That means POP RØ goes pink glazed honey cream shot oily salted caramel and then puffy glittery smoothy crunchy spongy chimichurri served with a side of shredded thai hindi afro euro sugary raw sushi with lots of rainbow flambé sauté sucré velouté topped with balsamic acidic baconic chocolatic foamy cheesy chèvry mobile-recipy jelly candy cocoa-friendly lollipop popcorn popnorm and pop-unicorn fritters and fritattas fajitas and enchiladas filled with guacamole shriracha moamba pavlova goulasch vatapá and jacarandá and a gelatto de farinheira and a semifreddo de açorda de miso de vickyssoise de salada niçoise for dessert with loads of spicy hot hot hot and then ice ice baby spinach sprinkled with marshmallow mushroomy nutty meaty veggie mashed-up-potato covered with a unicorn-shaped petit gâteaux served in a shiny bruschetta pancetta punheta de bacalhau fast-cooked in a burger queen mickey mouse au chocolat avec du caffe latte latte latte que eu tô passando, vai! To cut this long story short, POP RØ goes americano. That is, POP RØ goes Thug. That is, POP RØ goes Unicorn. That is, PO RØ goes the World™.



ALL OVER THE PLATE
  • Pink lemonade in a mason jar
  • Olive oil & creamy carrot balsamic emulsion for bread dipping
  • Warm bulgur salad in a glass, with roasted veg, honey cashews & cilantro cream
  • Tomato velouté shot w/ sour cream & chives
  • Thai-style spring rolls w/ mango sauce
  • Spoon of port-glazed figs w/ melted chèvre & prosciutto
  • Peas/feta/mint bruschettas
  • Shredded beet, peach and cucumber salad w/ cheated pesto
  • Corn/bean/bacon salad w/ chimichurri
  • Chicken ramen w/ "alentejana" broth
  • Apple puff-tart w/ vanilla marshmallow ice-cream & salted caramel
  • Watermelon/ginger/lime punch
  • Rainbow brigadeiro b-day cake



1.9.14

POP RØ #0.








Chef Rø & friends
Coimbra, 11 de Julho de 2012



Apre!-ritivo
Sangria de Vinho Verde & Maçã Verde c/ Menta & Mirtilos

Ace-ace-baby-pipes
Torricado Bulhão Pato
Lata de Mousseline de Mexilhão c/ Gressini de Tomilho
Roulade de Beringela, Chèvre & Framboesas

S'opá!
Vichysoisse de Bacalhau c/ Azeite de Persillade

Sal(g)ada
Morna de Barriga de Porco & Agrumes

Pasto
Dirty Rice

Sobre A Mesa
Panna Cotta Cítrica c/ Geleia de Lima
Tarte Frangipane-Nectarina c/ Smoothie de Manga




15.8.14

POP RØ @ RESTAURANT DAY




#HOME_COOKING

Não é uma BRAND new thing. É só a confirmação (agora tornada oficial) de que Vou À Tua Mesa nunca foi, nem nunca há-de ser, uma metáfora! Ou seja. Pop Rø é um pop-up restaurant pululante, imprevisível, tecno-emocional, mas sobretudo muito tecnobrega — investirá directamente nesse território ético-estético e relacional-fin-de-siècle-passado que é A SUA CASA, ou seja: a sua cozinha, o seu chinois, a sua vara de arames, a sua loiça IKEA, a sua decoração japonesa, a sua dieta paleolítica, a sua garrafeira, a sua despensa, o seu cestinho biológico, os seus convidados especiais. Uma azeitice hipster sem limites!... Por outras palavras: o Chef Rø [aka Rogério Nuno Costa] vai mesmo a sua casa, cozinha para si e consigo, partilha dicas com os seus convidados, ensina-lhe a técnica do ovo escalfado (com ou sem merdas moleculares), reaproveita-lhe os restos, arruma-lhe os tupperwares, brinca às casinhas e deixa-se instagramar de sifão na mão, com muito charme e duck faces.

Pop Rø promete, portanto, uma experiência personalizada (que é um conceito super-na-moda) e adaptada às suas necessidades é-cool-lógicas e também psiquiátricas: está provado cientificamente que olhar para uma sobremesa e ver a sua cara reflectida no brilho do ganache aumenta incrivelmente a produção de serotonina!

Pela primeira vez na cidade de Braga, e inserido no maior evento gastronómico do Mundo — Restaurant Day —, Pop Rø vai ocupar uma casa privada no centro da cidade, para servir um "3-course menu" confortável e requintado. Uma experiência igual a tantas outras, por isso única! Ao som do melhor pop rø escolhido ao calhas pelo iTunes do Chef.


Marcações & Informações [preço & localização]:
rogerio.nuno.costa@gmail.com
916409998

Mais info:




ALINHAMENTO:

  • Just Champagne — Welcoming Toast
  • Pop Rø Tunes On Demand
  • Black Sangria: rosé, black vodka, frozen blackberries, mint
  • Alheira-Ilha Rolls mit Thai Dip Sauce [mango, graham masala, lime, chilli]
  • French Tapenade mit Raisins Bread [olives, capers, anchovies]
  • Shot Of Tomato/Basil Velouté mit Chèvre Foam
  • Pink Lemonade In A Mason Jar [as a sort of hipster interlude]
  • Ramen mit Coconut/Lime/Chilli/Curry Broth, Crunchy Veg, Soy/Honey/Orange Glazed Salmon
  • Video Performance: Chef Rø eating a Bifana + Belo Cirúrgico [Bela TV feat. Chef Rø]
  • White Chocolate/Vanilla Panna Cotta + Dark Chocolate/Orange Ganache + Dulce de Leche Ice-Cream
  • Social Media Massive Photo Sharing
  • Just Coffee